Category: Resenhas


Cultura da ignorância

SIMPLICIDADE OU POBREZA VOCABULAR? – Os verbos no telejornalismo brasileiro – Felipe Pena

 

            Ser simples para ser entendido. Essa é a máxima do telejornalismo brasileiro. Objetividade e simplicidade são em tese dois pré-requisitos para o bom texto jornalístico. Características essas que acompanham os alunos de comunicação desde o primeiro dia de aula.

            Porém, quando tentamos ser simples demais podemos cair em uma armadilha, o empobrecimento do texto e a sua superficialidade. Conciliar um texto simples a um texto de qualidade pode ser um desafio.

            Vera Íris Paternostro afirma que o coloquial deve ser empregado como recurso para uma comunicação eficaz. Segundo ela “Quanto mais palavras forem familiares, ao telespectador, maior será o grau de comunicação”.

            Felipe Pena acredita que dessa maneira o texto terá como “conseqüência uma óbvia limitação vocabular”. É o que também podemos concluir ao lembrar que Willian Bonner utilizou o personagem Homer Simpson como exemplo de telespectador padrão do Jornal Nacional. “Essa o Homer não vai entender’, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia”. (Laurindo Lalo Leal Filho)

            Ao ser questionado por comparar o telespectador médio brasileiro ao Homer Simpson, Willian Bonner se defende Sempre abordo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve aborrecer os que estudaram mais.”

            No texto é citada uma pesquisa feita em 1994, onde foi constatado que os verbos auxiliares ser, estar e ter responderam em média a 27% do total de utilização dessa classe de palavras no mesmo jornal. A mesma pesquisa foi repetida 12 anos depois. Durante esse período o telejornalismo brasileiro passou por várias modificações, onde a mais importante foi a troca de locutores por jornalistas de carreira, responsáveis pela construção dos próprios textos. Contudo os resultados da nova pesquisa se mantiveram quase inalterados.

            O uso exacerbado dos verbos auxiliares provoca um fenômeno conhecido como gerundismo, onda disseminada pelas operadoras de telemarketing.

            A simplicidade e a repetição de palavras podem causar algo pior do que a simples pobreza vocabular, a criação da cultura de disseminação da ignorância.

            Subestimando o público e produzindo conteúdo de baixo intelecto, não se incentiva o interlocutor a buscar um “algo mais”.

A notícia vista como um produto a venda está derrubando a qualidade de nossos telejornais e conseguinte os telespectadores junto com ela. Tanto a simplificação das palavras como a escolha sem critério das notícias contribuem para a falta de intelectualidade do telespectador.

A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão”. (Laurindo Lalo Leal Filho)

            É possível ser claro e se fazer entender sem menosprezar o telespectador. A começar pela escolha das notícias, e pela maneira com que as mesmas são abordadas.

A TV é uma grande produtora de conhecimento, e arrasta multidões com ela. “O jornalismo está longe de ser um espelho do real. É, antes, uma construção social de uma suposta realidade”.

MORAES, Denis. Planeta mídia – tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Letra Livre, 1998.

 

Para elaborar este livro, Denis de Moraes fez uma pesquisa muito profunda. Buscou informações concisas em várias bibliografias e sites. Na introdução o autor diz que a Internet lhe propiciou ferramentas fundamentais.

O livro trata do paradigma digital em que estamos inseridos e apresenta “as dimensões reais do hipercrescimento dos setores de mídia, entretenimento e telecomunicações”, que ficam identificados como “atores de primeira linha no processo de reprodução do capital em dimensão planetária, lubrificando a rede de fluxos financeiros que conectam os mercados em tempo real”.

Com as palavras “Dragão Capitalista”, Denis procura definir a atual situação.

A tecnologia se mostra cada vez mais acelerada, e nada mais nos parece ser inovação, e sim o penúltimo grito da moda. Conjuntamente com a tecnologia o capitalismo vai reorganizando o seu espaço e garantindo a sua hegemonia, “os jornais já não dependem de tinta, rotativa e notícias para conquistar os leitores, então lança mão de vários artifícios tais como: fascículos, cds e etc.”.

As sociedades passam a ser guardadas pela astúcia do marketing. O novo paradigma, segundo Manuel Castells, promove a hibridação entre os contextos culturais, a ação social e o sistema tecnológico.

O livro tem informações importantes, outras nem tanto, o que em pode causar o desinteresse da leitura. Mas de um modo geral o leitor atento vai ter subsídio suficiente para interpretar os acontecimentos atuais, o que o autor denomina de “Babel eletrônica” interligada por circuitos eletrônicos.

A convergência entre comunicações, informática e telecomunicações é bem explorada e por vezes encontra-se o termo infotelecomunicações1. É o poder da digitalização tornando cada vez mais presente combinações de coisas que antes pareciam distantes.

Ao mesmo tempo em que o paradigma digital representa a evolução, é notório a concentração de poder. Como exemplo pode-se citar o monopólio que os Estados Unidos exercem em relação a outros países, visto a predominância hollywoodiana nas vídeo locadoras e nas salas de cinema.

É a mídia simulando a realidade, recriando os espaços, administrando e disciplinando.

A convergência digital é uma realidade, e está ai. Cabe a nós aproveitá-la ao máximo, mas com consciência sem se deixar vencer na luta conta o dragão.

 

 Convido os colegas a discutir nos comentários o que vem a ser:

PARADIGMA DIGITAL

Os aparatos de informática, telecomunicações e comunicações viabilizam uma convergência flexível de forma (o suporte técnico), de conteúdo (software, programas televisivos, filmes) e de veiculação (satélites, fibras óticas, etc.). A conjunção destes poderes estratégicos relacionados ao macrocampo da multimídia é o que se chama de infotelecomunicações. (Trecho retirado do Projeto de Lei da Câmara nº 59, de 2003 – referente à regionalização da programação cultural, artística e jornalística e à produção independente nas emissoras de radio e TV e dá outras providências)

 

Leia também: Jornalismo Contemporâneo: Os Media entre a Era Gutenberg e o paradigma Digital – Joaquim Vieira

Voto: Dever ou Direito?

Antes do voto livre o voto consciente.

Antes do voto livre, o voto consciente.

CEZIMBRA, Márcia e CLÉBICAR, Tatiana – Razões que levam 125.913.479 brasileiros às urnas. Revista O Globo

 

            Em ano eleitoral reacende uma velha discussão: a obrigatoriedade do voto.

            O povo está desiludido com seus políticos e a internet vem tendo uma influência crescente sobre seus usuários, que se envolvem nos debates realizados em redes de relacionamentos, blogs, entre outros.

            A internet é como uma tsunami. Um único internauta é capaz de mobilizar milhares”, diz o advogado Homero Mutinho Filho, mediador de uma das várias comunidades que defendem a anulação do voto como forma de protesto.

            Dentro dessa blogosfera surge um novo movimento que estimula a participação do eleitor, a Wikipolítica, onde milhões de usuários discutem os problemas de suas comunidades, com o objetivo de promover ações que obriguem o governo a escutá-las.

            Uma das alegações das pessoas a favor da instutuição do voto livre é a desilusão dos brasileiros com a política brasileira. Gente que vê no voto facultativo uma arma letal contra a corrupção.

            Ambas as modalidades de voto apresentam vantagens e desvantagens

Com o voto livre a corrupção poderia diminuir ou aumentar, “os políticos corruptos compram o voto dos eleitores, que já tem de ir as urnas de qualquer maneira. Num contexto de voto livre, eles poderiam dar um outro passo para atrair fisicamente o eleitor às urnas, lembrando a república de 1946”(Jairo Nicolau, cientista político).

            Segundo José Murilo de Carvalho a diferenciação entre o voto obrigatório e o voto facultativo é que “o voto obrigatório caracteriza a cidadania como dever, e o voto facultativo mostra a cidadania como direito”.

            Se o eleitor é obrigado a votar, pode encontrar no voto em branco, nulo ou justificado, uma maneira de protestar.

            Jairo Nicolau afirma que “um país não é mais ou menos democrático por adotar o voto facultativo, ou obrigatório” já que pesquisas indicam que 70% dos eleitores mais pobres dizem que não votariam se não fossem obrigados. Nos Estados Unidos onde o voto é livre, negros, pobres e mães solteiras deixam de votar.

            O voto facultativo é a meta da sociedade democrática, representa o ideal de uma democracia plena, exigindo amadurecimento e responsabilidade, o voto livre não seria a solução para os problemas atuais. (…) Uma idéia possível seria a redução paulatina da obrigatoriedade, segundo a idade dos eleitores” (Carmem Fontenelle, vice-presidente da OAB)

            As três correntes de pensamento:

Os que defendem a obrigatoriedade do voto para que todos exerçam a sua cidadania;

Os que acreditam que o exercício da cidadania não deve ser imposto;

E ainda os que são favoráveis ao voto facultativo, mas acreditam que não é viável, visto que exige um amadurecimento que não é observado na maioria dos eleitores brasileiros.

            Mais importante que discutir se o voto deveria ser livre ou não, é pensar em como estamos usando esse direito adquirido. É triste lembrar que há vinte anos vários brasileiros saíram às ruas pedindo, ou melhor, exigindo Diretas Já. E para quê? Um país que lutou tanto para escolher seu presidente, agora trata o voto com tanto desdém. O que temos feito à respeito?

            O voto equipara os cidadãos, o de um morador de rua e de um empresário tem o mesmo valor, o mesmo peso.

            As pessoas têm que ter o direito de escolher se querem ou não votar, mas será que estão preparadas para isso?

            As palavras de Jairo Nicolau representam bem este sentimento: “Talvez quando tivermos uma população menos desigual, possamos ter o voto livre”.